2.06.2007

ALUADO



Deus sobeja minha mãos

acordado espero

quem vem

pra me trazer as pedras :

as de jogar na lua.

Ovo



Pus
um
poema
feito
um
ovo
de
ema
e
do-eu
pra
sair

A POESIA NA SERVE PRA NADA




A poesia não serve
A poesia não serve pra nada
A poesia não serve
A poesia nem beija
A poesia nem sara

Só silva,
rara.
Selva e água.


A poesia não seca
A poesia não apaga
A poesia medra
mina, prata.

A poesia não serve pra nada.

A poesia assombra
A poesia assanha o cabelo das coisas
A poesia só cena
( açucena assassina desarvorada)

A poesia não serve pra nada.

A poesia nada
A poesia nódoa
A poesia só surta
(Kama Sutra)

A poesia não tem açúcar
A poesia sulca
A poesia arde
A poesia poesia

A poesia me seva
a poesia me sorve
e serve-me de sobremesa
a poesia me serve

a poesia
me salva

Brutalidade de favo (Pra ser lido ao som de algum clarinete)




Tu imprimes em meu peito uma dor doce
que as formigas espreitam,
mas não se atrevem lamber.

Às margens dessa doçura-dor
os insetos alados,
os besouros agourentos,
as libélulas translúcidas
os zangões negros,
as abelhas desenhadas
aquecem-se brasas
num lirismo meloso e meu...

O amor,
como um deus brincalhão,
afaga meus cabelos,
sagra o mel virgem
e faz que desaparece

Meu peito é só chaga,
FAVO BRUTO
Recendendo
Aceso mel
Sou santo.

Deus outra vez se mostra,
abre meu peito.

Nunca, nunca, nunca mais estanco...

Receita para poemas sobre Bayeux



Não invente de trazer para o poema
Nem maré,
Nem marisco,
Nem homens semi-nus submersos em lama...

Não invente de aperrear o poema
Com os sonhos dos quais se emprenham
as tantas brutas marisqueiras,
Nem os desejos,
Nem os medos,
Nem a fome delas...

Mantenha o poema limpo,
Imune ao cheiro da carne-água da maré...
Mantenha o poema ileso,
Desinfetado,
Bem vestido,
Nutrido, corado...

Apague do poema
Também a ponte Sanhauá,
o sexo fulgurante dela,
sua alvenaria turva,
sua feiúra tosca,
libidinosa e baça...

Nem desenhe no poema
A alma anfíbia dos ribeirinhos,
Nem a geografia podre e mole de suas casas.

Não maculem o poema
com o vocabulário chulo deles,
com a ignorância deles,
com a insignificância deles,
com a realidade nua deles,
com o que for precário.

Num poema sobre Bayeux
vomite um ufanismo besta,
enfeite-o com louvores resignados
aos bem nascidos,
aos bonitos,
aos empreendedores,
aos que não sucubem.

Maquie o poema historiando
a vida dos vultos nobres de Bayeux,
curvem-se a elegância deles,
a seus dentes alvos,
ao cheiro deles.

Cole no poema sorrisinhos e fotografias...
é bom também pôr aviõezinhos,
citar inaugurações de escolas e de atos piedosos,
tais como calçamentos de rua num ano aí qualquer...

Ô, salvem os vultos históricos de Bayeux do anonimato,
reverenciem com alguma doçura
a magnanimidade dos ex-prefeitos,
o compromisso abnegado dos vereadores
(aqui é bom pôr algumas lágrimas...de felicidade e reconhecimento...)

Para os que gostam de uma poética mais moderna
sugere-se brincar com as palavras “caranguejo”,
ou com compostos como “Sonho antigo” ou “Agora, Sara”
...e mais coisas do mesmo nível.

Prestigiem a criatividade aguçada dos ilustres...
Passe uma escovinha no caranguejo antes de transformá-lo em metáfora...
escovem bem...

Desaprovem atitudes pseudo-vanguarda
que quiserem ousar fazer versos dizendo, por exemplo,
que Bayeux é um cu,
um cuzinho insignificante.
Audácias da poesia modernosa,
tão pouco evangélica,
tão nada católica...
Esqueçam isso:

Definitivamente,
Bayeux não é um cu (alegoria absurda, apelativa, insolente, negra)

Num poema sobre Bayeux,
o mais importante,

o fundamental:
Esqueça Bayeux para todo o sempre!

Pronto...o poema estará sublime.

2.05.2007

Leiam as historinhas (B)rasas de sentido

- Eu sinto muito!

- O quê?

- (...)

- Ah... experimenta um analgésico.

- ...Absinto...

Girassol de vampiro





O vampiro espia de sua eternidade insone os girassóis gemerem.

O sol

se firma no céu feito um rapaz de vinte anos.

Então,
ele sente falta de Deus
e escreve (com sangue)
seus próprios salmos e boleros.


As flores amarelas e gordas se empinam e riem dele.


Esse vampiro é
quase tão triste como um guarda-chuva
quase tão triste como um ataúde
ou como uma escova de dentes.

Esse vampiro é patético
e anacrônico
não cabe dentro de si,
nem no castelo,
nem em seu vale vaporoso,
nem em sua própria maldição

A solidão do vampiro tem carne:
é sua vela preta,
sua capa,
seu caixão.

quer dizer o que isso quer dizer


agora esse é um outro era uma vez
um homem que escrevia as coisas
pra poder fazer com que elas não escapassem
que nem peixes lisos
que nem gatos ágeis
que nem pássaros
que nem Deus

mas as coisas ficavam ali ludibrilhosas
dissimulando distração
depreendendo calor


elas eram inteiras
como uma cebola
como um precipício e seus dentros
como assim a palavra vento

suas delas mesmas pra o si mesmas
que até podiam designificar

elas nem eram signos elas


não podiam ser tocadas pelo fogo
porque a essência delas
por si mesma já era ígnea
como a brasa mesmo
como mesmo a palavra em brasa

o homem pediu por favor por favor
deixe eu tatuar na minha língua
ígnea sarça
calêndula saliva
luz tapume
mel tâmara raiz salvia
torpor ladrilho
vidro mim cítara clava

aí ele teve que lamber com respeito as brasas
como se elas fossem outras línguas

aí elas arderam em sua boca
brasas mesmo

iii



Agora me deu vontade de dizer que tinha um menino que tinha um porquinho que era cego. O porquinho deixava a gente sentir que o pelo dele era alaranjado. A mãe dele abandonou ele, mordia ele no focinho quando ele buscava o leite grosso das mamas dela. O menino achava que era bom improvisar um peito artificial pra ele dando em sua boca uma mistura liquefeita de farinha e açúcar. O menino era tão pobre como o porquinho, o que era pior era que tinha dois grandes olhos pra ver o sofrimento do porco de olhos vermelhos. Amaldiçoou a porca gorda com suas fartas tetas de leite que a enfeitavam como brincos. A porca era de uma crueldade inteiriça, afastando o bicho da cama lama. A mãe dele era uma barriga bruta de abandono. Ele era cego. Parece que ele morreu e a história acabou.

ii


Essa é uma segunda historinha. Tão sem como. Desvertebrada feito fosse mais poesia. Sem sangue, osso, víscera, gordura, somente som bruta saudade ou esperança, alegria. Não era uma vez nada. Pronto. Ponto.

historinhas rasas de sentido


i
Ela tinha um nome, mas se vestia sempre, sempre, sempre de amarelo ovo. Um dia ela encontrou-se com ninguém e ninguém parecia grave e de um jeito assim austero que de repente o céu, vejam só, até o céu teve um rompante de querer ser grave também...a menina na verdade era ninguém também, mas era leve, quase mais um pouquinho que diáfana, é uma personagem que não há, esvoaça por sobre as margens com seu vestidinho amarelo ovo, querendo querendo por favor nenhum vento me leve que eu quero um pouco pesar. Aí o céu, escutando tudo isso achou graça e rio um bocado de estrelas. Um rio de repente apareceu, era um rio riacho, rio desses pequenos e gorduchos como anões, como alaúdes. Mas o céu sabia que a narrativa precisa de alguma carnezinha de coisa de que falar, mas tudo estava meio sem cabeça, tronco, membro, pé. Haveria de ter mais ação, mais conflito, caldo de alguma coisa sendo. Mas a menina era o próprio invisível descoser. O que era coisa? O vestido amarelo ovo cuspiu no vazio. O sol explodiu como uma lâmpada de vidro agora oca – reverso de um ovo oco. Ela- a menina agora nua do si do vestidinho amarelo destecido- quis comer o nome, chupá-lo até que ele mesmo derretesse de todo. A língua invisível dela se apagou. Nem. Descoisa. Desacontecia.

12.09.2006

Lendo Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar

Capítulo I

A descrição do quarto: "...o quarto(...) é um mundo(...)

Braseiros


Sagração da palavra mesma (Um poema de Raimundo Cassiano Ferraz)

O poeta se presta ao exercício das horas:
Seu cio é a coisa mais nua e sacra
Na boca do poeta há brasas
Lume de fogo bem bruto

levas de lavas
vulcão-palavra :
Puma-palavra
palavra-Pluma
Pa-larvas
E borbo-letras
Só mesmo letra me farta
Só resmas e resmas

Para o poeta :
Anjos e coisas acesas.


Foto de комп. искусство

AS HORAS DE ISAÍAS



Do livro - O Diário de Isaías

Essa manhã o céu mais pareceu-lhe um grande lençol quarando...um tecido de azul que vergava debaixo do sol. Uma espécie de indisposição física qualquer fez o rio parecer muito longe à Isaías, muito embora ele acalentasse a idéia de um banho demorado e seus mergulhos. Há dias não chove. Isaías, mesmo assim, escutou música, preparou algo para seu almoço e até descansou à tarde. Agora as mulheres chegam com bacias carregadas de roupas lavadas, o cheiro consistente de coisa limpa aquieta esse dia mormacento.

As palavras



«Depois que os serafins celebraram o Senhor, um deles trouxe a meus lábios uma brasa ardente com uma tenaz.»

"Quando mais dentro aflora/Tora da palavra

A Terceira Margem do Rio - Caetano Veloso

Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira boa,
dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira

Água da palavra
Água calada, pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai

Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai
Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio riu, ri
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai
Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra

Rio, pau enorme, nosso pai

A terceira margem do rio

A Terceira Margem do Rio - Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.
Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.
Conto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora José Olympio - Rio de Janeiro, 1962, pág. 31 a 37.